Tatiana Cavinato me chama para dizer o que ouviu: o mais profundo é a pele. Quando começamos a conversar sobre as pinturas que compõem essa exposição eu já sabia o que queria dizer a ela, mas ainda havia algo para complementar todas aquelas palavras que guardo desde 2008 e dos desenhos da sua exposição Self- Service.
O contexto urbano e público aqui não é essencialmente masculino, por isso não guarda o que há de feminino apenas no ambiente doméstico e privado. As figuras não necessitam de limitações de gênero, porque são mascaradas e livres, máscara para mostrar e não para esconder.
Toda a cena se configura aos poucos após a primeira ação que é pintar, dar cor. E ela me diz que a figura faz influenciar a cor, porque não surge como imagem pronta. Nós procuramos a ironia por causa da minha necessidade em ver a gentileza que as imagens me sugerem e a naturalidade que tudo se apresenta.
Observadora da rua, da linguagem e dos sentidos e fins que as pessoas querem ou não dar a suas falas e gestos. A acidez está na subversão desse observar, que vai de encontro com a sua narrativa pessoal e onisciente na imagem. Entra na história que vai contar.
Os trabalhos são feitos geralmente à noite, com música, em um ateliê cercado de árvores e guardado por cachorros agitados. Como se um filme mudo passasse veloz, mesmo na hora em que as frases estão estampadas na tela. Gera a distorção de dentes desejosos de fecundar bocas excitadas, com os braços e corpos às vezes tensos ou bem calmos. Machos e fêmeas são deslocados pelo som da música, o carnaval que chega, a máscara que não desgrudaria da cara. Não se trata de uma festa terrena, pode ser que tudo seja espiritual. Não há problema sobre a sexualidade. Apenas tolerância.
Essa questão entre espiritualidade e cultura popular não se encontra somente no onírico. Ela é o reflexo do tempo e da memória; para quem se observa e no mesmo ambiente retrata duas figuras em posições diferentes, em corpos distintos e uma única personalidade, consciência. Sem pretender explicar tudo ou tornar qualquer sugestão exagerada, essas pessoas retratadas numa maquiagem evidente querem manifestar um desejo do corpo de transcender entre e dentro de si. Vorazes e gentis nos assistem com uma perplexidade muda, jeito de saber os nossos caminhos.
Mauro Figueiredo
Publicado no catálogo da exposição Aquário dos Animais 2011