Eldorado. Vista Alegre. Vila da Paz. Horizonte Azul. São todos nomes de comunidades carentes da conflituosa região metropolitana de São Paulo, quase antíteses do dia-a-dia árduo desses bairros, com denominações que evocam uma placidez almejada, mas nunca atingida. Fazem par também com o Xangrilá que a artista mineira Tatiana Cavinato apresenta agora no CCSP (Centro Cultural São Paulo), espécie de investigação irônica que ela assina, ao exibir sua nova série de pinturas cheia de estranheza e ainda atípica no cenário da arte contemporânea nacional.
Cavinato começa sua provocação dando título aos novos trabalhos por meio da apropriação semântica de bairro que conhece bem, lugar que não tem nada a ver com o idílio da exótica localidade de Shangrilá. O lócus tem origem em Horizonte Perdido (1933), de James Hilton (1900-1954),best seller hoje esquecido em escaninhos empoeirados. Esse hábil uso, contudo, não se relaciona com um comentário sociopolítico que poderia soar superficial. Cavinato inquieta com sua poética crispada, elegendo a linguagem por excelência da história da arte, a pintura.
Essa ‘desrespeitosa’ atitude, em um circuito que preza a transcendência pictórica, se manifesta ativamente com estratégias refletidas no fazer da artista, que é muito distante de uma ‘intuitiva’ ou ‘espontânea’. A crítica vem após uma intensa atuação de ateliê, que foi evidente no espesso conjunto mostrado em individuais como Aquário dos Animais (2011). Ela apresentava narrativas com protagonistas incomuns, mas embasando uma reencenação que fincara influências em momentos especiais da pintura. E hoje você pode ver Matisse, Chagall, Rousseau, Der Blaue Reiter, Bosch, art brut em Xangrilá. O pictórico de Cavinato pode vir das bordas rasgadas, da composição a trazer o esboço, por exemplo, ou dos sentidos do gesto, tanto verticais ao serem feitos na parede, ou horizontais numa nada reverente lida dos pincéis sobre as cheias e coloridas superfícies, após longo trabalho. Ao desestabilizar manuais de bom gosto, Tatiana Cavinato investiga o absurdo no que ele tem de mais humano e, por isso, vem ganhar o status de necessário, vital.
Mario Gioia
(Publicado no folder do Programa de exposições do Centro Cultural São Paulo, junho de 2015).