Malinowski me deixa contrariado quando leio sobre o conceito de magia. O antropólogo defende a prática como algo extraordinário e não-cotidiano nas sociedades dos “selvagens”, de forma que a magia é o artefato a que se dispõe nos momentos mais incertos e duvidosos. Ela interfere na vida das pessoas com a possibilidade de solucionar e viabilizar explicações que não se bastam no universo da sabedoria e análise desses povos. Sabemos que Malinowski foi criticado e revisado por numerosos antropólogos e cientistas sociais do século XX, e a sua posição sobre o magismo primitivo também.
Considero importante verificar a base de todo o pensamento científico como uma forma de entendimento da análise do tempo em que a teoria fora lançada, como material de estudo do desenvolvimento do pensamento humano, e numa característica um pouco fatalista, imagino a reação das pessoas em torno de devidos conceitos e tabus, que incensados pelo conhecimento e a ciência (quase sempre errante e perigosamente passiva), recorrem ao turbilhão de comportamentos “adequados” ao seu tempo; algo que reside no mais humano dos dons – a consciência. Abomino então toda e qualquer expressão que sugere que alguma pessoa/coisa “está à frente de seu tempo”.
Mas a magia. Não seria um ato cotidiano, bem absorvido, difundido e muito vasto mundo afora? E não é também algo que paira entre o ordinário e o especial; que celebra e tem diversas intenções, interpretações? A magia foi mitificada e ao mesmo tempo, desnudada. Entre figas, olhos gregos ou turcos, o ato de tocar três vezes na madeira e dizer “isola!”, esses amuletos e palavras aparentemente inocentes e adotados carinhosamente pela nossa linguagem corporal brasileira, sul-americana, mundial. Truques que se amontoam ao nosso repertório de significados. Isso não é o interesse pelo ocultismo ou práticas místicas antigas, mas a maneira como algo disso tudo passou a existir nas vidas mais materialistas ou religiosas, mas bem improváveis. A magia que trato aqui é caseira, às vezes desleixada.
Aquário do mundo
Tatiana Cavinato me chama para dizer o que ouviu: o mais profundo é a pele. Quando começamos a conversar sobre as pinturas que compõem essa exposição eu já sabia o que queria dizer a ela, mas ainda havia algo para complementar todas aquelas palavras que guardo desde 2008 e dos desenhos da sua exposição Self- Service.
O contexto urbano e público aqui não é essencialmente masculino, por isso não guarda o que há de feminino apenas no ambiente doméstico e privado. As figuras não necessitam de limitações de gênero, porque são mascaradas e livres, máscara para mostrar e não para esconder.
Toda a cena se configura aos poucos após a primeira ação que é pintar, dar cor. E ela me diz que a figura faz influenciar a cor, porque não surge como imagem pronta. Nós procuramos a ironia por causa da minha necessidade em ver a gentileza que as imagens me sugerem e a naturalidade que tudo se apresenta.
Observadora da rua, da linguagem e dos sentidos e fins que as pessoas querem ou não dar a suas falas e gestos. A acidez está na subversão desse observar, que vai de encontro com a sua narrativa pessoal e onisciente na imagem. Entra na história que vai contar.
Os trabalhos são feitos geralmente à noite, com música, em um ateliê cercado de árvores e guardado por cachorros agitados. Como se um filme mudo passasse veloz, mesmo na hora em que as frases estão estampadas na tela. Gera a distorção de dentes desejosos de fecundar bocas excitadas, com os braços e corpos às vezes tensos ou bem calmos. Machos e fêmeas são deslocados pelo som da música, o carnaval que chega, a máscara que não desgrudaria da cara. Não se trata de uma festa terrena, pode ser que tudo seja espiritual. Não há problema sobre a sexualidade. Apenas tolerância.
Essa questão entre espiritualidade e cultura popular não se encontra somente no onírico. Ela é o reflexo do tempo e da memória; para quem se observa e no mesmo ambiente retrata duas figuras em posições diferentes, em corpos distintos e uma única personalidade, consciência. Sem pretender explicar tudo ou tornar qualquer sugestão exagerada, essas pessoas retratadas numa maquiagem evidente querem manifestar um desejo do corpo de transcender entre e dentro de si. Vorazes e gentis nos assistem com uma perplexidade muda, jeito de saber os nossos caminhos.
Mauro Figueiredo