Duas embarcações parecem dar o norte nos tortuosos caminhos construídos por Tatiana Cavinato em Xangrilá. Para a individual que faz parte da edição 2015 do Programa de Exposições do CCSP (Centro Cultural São Paulo) e que conta com 22 trabalhos, esse transporte se faz central em uma pintura sobre papel em tons de preto e branco, menor. É quase um esboço da nau que paira à esquerda numa pintura maior, de técnica mista, fulcral na leitura dessa desconcertante Xangrilá proposta pela artista mineira.
Por meio desse meio em movimento, é possível evocar a obra-prima romântica de Théodore Géricault (1791-1824), A Jangada da Medusa (1818-19), que narra o trágico episódio ocorrido no Atlântico, com dados de canibalismo e outros horrores. Os corpos frágeis a dividirem um barco tíbio em meio a um azul embriagante (na tela maior), que, na calmaria, pode oscilar para a revolta em curto espaço de tempo, faz nosso olhar remeter a outras cenas de medo contemporâneas. Exemplos não faltam, e os mais pungentes talvez sejam retratados nas travessias da África rumo a Lampedusa, no sul da Itália, que, reiteradas vezes, se encerram em tragédias inomináveis. De todo modo, o dado politico, ao menos tão explícito, não é o principal na obra de Cavinato, e sim como o estranho, o bizarro e o absurdo constituem escrituras necessárias e energéticas dentro do humano.
Assim, essa pintura maior, uma das de dimensões mais generosas em Xangrilá, vai se tornando particular por uma série de procedimentos habilmente utilizados pela artista. A barca já citada é um deles, e seu esboço algo escuro, disposto ao lado no espaço expográfico, faz com que sua importância cresça. A predominância do mar na composição, a sobrepujar céu e areia da praia, também ajuda na construção de uma atmosfera perturbadora no trabalho. A iminência de uma virada no ambiente plácido predominante é o que mais dá instabilidade e incômodo ao conjunto. Esse futuro incerto (ou de linhas ameaçadoras) também se sobressai pelo cinza da parte superior, com nuvens que anteveem transformações bruscas, e com dois outros barcos sem seus ocupantes, incluindo um mais no canto inferior esquerdo da composição, num negror enigmático. A menina de cabelos vermelhos, em posição melancólica, o castelo de consistência duvidosa, em grãos de areia e a encimar uma criança enterrada, apenas com a cabeça para fora, tudo isso ajuda a forjar um ambiente intranquilo.
Em termos formais, é interessante o processo de realização das obras de Cavinato. Mesmo que elas aparentem rudeza e uma prática mais solta, ao analisarmos mais detidamente cada trabalho, é possível perceber que há acumulação de camadas de pintura, sem contar a mistura de materiais, de técnicas e de procedimentos. No quadro maior já analisado, apenas com muita observação é que vemos pequenos restos de jornal em sua superfície, por exemplo. Óleo, acrílica e spray; nanquim, carvão e grafite; tela e papel; colagem, pintura e desenho, são diversos vetores de produção que a artista embaralha, terminando por conferir resultados mais híbridos às obras exibidas.
Paisagem em transmutação
De todo modo, a Xangrilá que dá título à mostra indica pouco da origem do título _ o antigo best-seller Horizonte Perdido (1933), de James Hilton (1900-1954), hoje produto apenas encontrado em prateleiras empoeiradas de sebos e que traz a busca desse lócus exótico e idílico_, migrando hoje para os conflagrados arrebaldes metropolitanos país afora, que, curiosamente, ostentam nomes que denotam paz e calmaria, justamente o contrário do que se passa cotidianamente nas comunidades.
A paisagem barrada, densamente ocupada e num tipo de achatamento, pode ser mais percebida na pintura que abre a exposição, com um fundo mais escuro e que deve ser a que acumula mais elementos em todo o recorte. O pandemônio que Cavinato cria por meio de ruidosas figuras e práticas num mesmo trabalho _ edifícios que perdem a proporção em meio a corpos nus em uma zona entre o humano, o animal e o divino, numa espécie de cerimônia macabra de massa multicolorida atesta o mal-estar quase patológico da atual urbe.
A habilidade da artista mineira está em construir sua produção visual utilizando elementos ligados ao espontâneo, ao bruto, ao fresco, e, no entanto, também aprimorando a investigação plástico-conceitual pouco a pouco num rotineiro trabalho de ateliê, em que o fazer vai desdobrando novas questões, práticas e linguagens. É evidente o avanço desde, por exemplo, Aquário dos Animais (2011), individual mais recente que apresentou em São Paulo.
O conjunto de Xangrilá está mais variado e ambicioso, no bom sentido, como a citada incursão ao urbano e, por exemplo, no uso de cores mais ‘artificiais’, como verdes, laranjas e rosas fluorescentes, como se Cavinato decalcasse em seus chassis e superfícies os layers agora hegemônicos do mundo digital, anteriormente vivenciados em janelas simultâneas, sobrepostas. E, assim, a pintura nunca morre, ganhando novos contornos e experiências. Vale lembrar o que Yve-Alain Bois, a respeito de Ryman, explana: “A desconstrução de Ryman não tem nada a ver com a negação. […] A dissolução de Ryman é postulada, embora eternamente contida e carinhosamente adiada; o processo (que identifica o traço com sua origem ‘subjetiva’) é infinitamente esticado: o fio nunca é cortado”1. Então, os campos, os lagartos, os astronautas, os demônios, as almas perdidas, o fogo, os escritos, os olhos, as cabeças das obras de Tatiana Cavinato se ligam mais a um vigor vital do que a uma propalada morte do meio.
Mario Gioia, junho de 2015.
BOIS, Yve-Alain. A Pintura como Modelo. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009, p. 279spray sobre tela, 115x76cm.
Publicado em 2017 no catálogo do Programa de Exposições 2015 do Centro Cultural São Paulo.