“O novo e o antigo homem” (Ana Luiza Neves)

“a cor, pulsão de vida, assinala nessa pintura a passagem ao ato e o lugar do ato” Louis Cane 

Em encontros espontâneos, se fundem e se confundem seres exóticos, elementos da natureza e do humano – o novo e o antigo homem se misturam. Novo, porque parte da transformação, o hibridismo do homem, homem-bicho, homem-coisa, a existência (precedida pela arte) de um novo ser que surge da infinidade de possibilidades com as quais o ser humano se depara todos os dias. Antigo porque traz a tona questões que permeiam a humanidade desde os seus primórdios, homem-primitivo. O nascimento, a gula, os dentes e pulsões, evidenciando aspectos inerentes à investigação da condição humana; instintos básicos e atemporais.

A simplicidade da forma, existente em alguns trabalhos, poderia ser comparada a ‘bad painting’ dos anos 80 se formos ressaltar a presença da ironia, que brinca e descarta questões da própria pintura. Ou nos remeter à outras correntes originadas no século XX como a “Fantasia” no que diz respeito ao domínio da imaginação, abstraindo ao máximo o mundo real, trazendo à tona toda a espontaneidade do artista diante de uma tela. Poderíamos ainda pensar sem hesitar, nos vestígios do expressionismo alemão, ou no neo- figurativo. Há sim inúmeras referências que perpassam as obras mas não esgotam a liberdade com que os elementos são utilizados ora sim, ora não, conforme melhor convir à cada situação.

Segundo a artista, a pintura não tenta ser acabada, ela fica no processo, no instante da criação. Vestígios do acúmulo de tentativas, o jogo e o trabalho do pintor culminando no extrapolar os limites do quadro, os limites do corpo, da realidade. Momentos de choque e carícia na constatação de que todos nós, humanos, temos maneiras semelhantes de colocar para fora nossas experiências mais secretas. A omissão, a simplicidade da forma em dias carregados de um certo mutismo.

O ser humano físico aqui surge como um intermediário entre o mundo psicológico interno e o universo exterior, nú, com todas as suas fragilidades e livre de pudores ou amarras. O que é a arte senão a extensão do ser, seus desejos mais obscuros seus caminhos mais secretos?

Ana Luiza Neves

Texto publicado no catálogo da exposição Aquário dos Animais 2011 

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